ESHC – Dia do patrono 6 de Março de 2009
Antes de mais, e em nome da Escola Secundária Homem Cristo, quero dar as boas vindas a todos os presentes, começando por agradecer a presença dos ilustres representantes e, através deles, das diferentes entidades por si representadas:
O Sr. Dr. Pedro Ferreira, vereador da Educação da Câmara Municipal de Aveiro;
A Sr.ª Dr.ª Helena Libório, directora-adjunta da Direcção Regional de Educação do Centro;
O Sr. Fernando Tavares Marques, presidente da Junta de Freguesia da Glória
A Sr.ª Eng.ª Gabriela Cônsul, presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação da nossa escola;
e
O Prof. António Manuel Pires de Carvalho, presidente do Conselho Geral Transitório desta Escola.
Congratulamo-nos por mais uma vez estarmos aqui reunidos para a comemoração do já tradicional Dia do Patrono.
Desta feita decidiu a Escola repetir o formato da sessão solene neste sarau, momento de encontros, recordações e celebração do dia do Patrono – Francisco Manuel Homem Cristo –, e de homenagem a todos os que nesta escola trabalharam e trabalham.
Estamos hoje aqui para fazer um balanço do que tem sido a nossa Escola, e do que para ela desejamos, mas também para homenagear o nosso patrono, aveirense insigne que muito deu ao País e à sua terra. Mal lembrado em Aveiro, talvez por acção de alguns dos familiares de personalidades locais, para quem o panfletário foi mais duro, injusto, ou até profundamente injusto, quando se envolvia no calor da contenda, nem por isso podemos ficar indiferentes ao que a sua acção e o seu combate trouxeram de positivo para Portugal e para Aveiro. A confirmar este esquecimento temos, por exemplo, a ignorância da generalidade dos aveirenses, quando solicitados a identificar a rua a que o município aveirense atribuiu o seu nome, entre a Ria e o Fórum, a antiga Rua da Fábrica, onde funcionou a tipografia do seu jornal, O Povo de Aveiro, rua essa que chega a vir identificada em mapas oficiais, e no que está disponível no Google, com o mesmo nome da que corre nas traseiras da nossa escola, a Rua de Homem Cristo Filho.
Todos temos virtudes e defeitos. Homem Cristo foi, ao longo da sua demorada carreira de jornalista, um polemista aguerrido e um panfletário quase sempre demasiado agreste. Esta realidade terá contribuído, como vimos, para o esquecimento a que foi votada a sua obra. Perante a obra feita, e os resultados alcançados, compete-nos desculpar a agressividade e os seus excessos, lembrando o que de melhor lhe devemos.
Os problemas do ensino e da educação estiveram sempre na linha da frente das preocupações de Homem Cristo. A atestá-lo, temos as frequentes passagens que, em toda a sua obra, dedica a esta temática, mas, sobretudo, as mais de mil páginas dos dois volumes das suas Cartas de Longe, o primeiro com o subtítulo A instrução secundária em Portugal e em França, publicado em 1915, e o segundo com o subtítulo Em defesa da instrução do povo, publicado em 1922.
Quanto à sua experiência na educação de adultos, concretizada na instrução dos recrutas analfabetos, que levou à prática enquanto oficial do exército, temos as expressivas páginas do seu Pro Pátria, publicado pela Editora França Amado de Coimbra, em 1905, com 2ª edição da Editora Guimarães datada de 1937.
As questões da educação e da instrução estão por detrás de algumas das mais violentas polémicas mantidas por Homem Cristo, nomeadamente contra Alfredo Pimenta, detentor de uma estranha evolução política, que começa no anarquismo, passa depois pelo republicanismo, pelo monarquismo e pelo Integralismo Lusitano, até chegar ao Salazarismo e ao aplauso do Fascismo e do Nazismo. Como afirma Homem Cristo, no último volume acima citado,
«O que sustentei e sustento, o que escrevi e escrevo, é que não há instrução sem educação, nem educação sem instrução. […] Instruir é educar. Educar é instruir. E a instrução precede sempre a educação.
? Pode-se dar má educação ou má instrução? Isso é outro caso. Mas para avaliar o valor da instrução e da educação, não temos que partir da má, mas da boa educação e instrução. […]
Além de sustentar que a instrução faz parte integrante da educação, sustentei eu sempre e sustento que a instrução é o maior instrumento da educação, e que, sem instrução, não há, modernamente, educação.»[1]
Neste dia pretendemos também recordar as gerações de formadores e educadores que, ao longo das suas vidas profissionais, contribuíram ou continuam a contribuir para a formação de cidadãos livres, activos e competentes, nos diferentes percursos que a vida lhes destinou ou que a sua força anímica soube eleger.
Distinguimos e homenageamos em simultâneo todos os que, pelo desempenho das mais variadas funções nesta escola, contribuíram para a formação dos nossos alunos.
Uma Escola tem como função primordial oferecer as condições educativas, mesmo quando nos faltam algumas condições materiais, para que todos os alunos consigam realizar os seus anseios mais legítimos, e aproximem o futuro das aspirações do presente.
Como escola secundária, trabalhamos diariamente com adolescentes, pré-adultos como eu lhes costumo chamar, que estão a delinear não só percursos pessoais, mas também a co-construir personalidades, que pretendemos educadas para a cidadania, e para o espírito crítico e livre. Educar para a diversidade, para a aceitação do Outro, são igualmente valores que, enquanto Escola, temos obrigação de transmitir aos nossos jovens.
Está na hora de concluir a minha intervenção, mas não quero deixar de assinalar a importância de momentos como este, em que estamos a homenagear os alunos que já completaram os 10.º e 11º anos, ou o ensino secundário, e que, pelos resultados obtidos, se destacaram na vertente académica, pelo seu esforço e empenho pessoal.
Homenagearemos também alguns colegas, que cessaram as suas funções enquanto professores no activo, mas que continuarão, com certeza, a dar o seu contributo para a construção de uma sociedade mais justa, mais democrática e mais responsável pelo futuro. E não esqueceremos a nossa colega Raquel Regala, que a morte nos levou há pouco, mas que estará por aí algures, a dar-nos força para continuarmos a nossa caminhada.
[1] CRISTO, Homem – Cartas de Longe (2.ª Série): Em defesa da instrução do Povo. Aveiro: Tipografia Nacional de Homem Cristo – Editor, 1922. p. 170-171.


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